Di Cavalcanti Di Glauber

02/05/2014 10:00

Um dos mais longos casos de censura a uma obra de arte no Brasil teve início no dia 26 de outubro de 1976. Ao saber da morte do pintor Di Cavalcanti, o cineasta Glauber Rocha correu para o funeral, com a câmera na mão e a ideia na cabeça de homenagear o amigo de longa data. O registro virou o curta “Di-Glauber” que, até hoje, poucos brasileiros puderam assistir. O filme estreou juntamente com “Cabeças cortadas”, em 11 de março de 1977, na Cinemateca do MAM, e logo após a primeira sessão, a filha adotiva do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti, iniciou sua batalha para proibi-lo. Em 1979, a 7ª Vara Cível concedeu liminar a um mandado de segurança impetrado por Elizabeth, vetando a exibição do filme. A decisão vale até hoje.

Em 2004, um sobrinho do cineasta disponibilizou o filme na internet, mas, nos cinemas, “Di-Glauber” — cujo título oficial é "Ninguém assistiu ao formidável enterro de sua quimera, somente a ingratidão, essa pantera, foi sua companheira inseparável" — nunca pode fazer carreira. Glauber passou a noite da estreia na delegacia, tentando resolver o problema. Algumas cópias chegaram a passar em universidades, mas a decisão judicial impediu novas exibições.

Segunda a família, na década de 70, num encontro em Paris, Di e Glauber teriam feito um acordo. Di pintaria Glauber e seria filmado pelo cineasta. Ironicamente, Glauber teria perguntado a Di se queria ser filmado “vivo ou morto”. Quando soube da morte do amigo, o cineasta resolveu registrar as últimas imagens do artista plástico. Pegou sua câmera 16 mm e filmou o velório no MAM e o sepultamento no cemitério São João Batista.

O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, em 1977, antes que a Justiça proibisse a exibição em território nacional. A filha de Di considerou a obra desrespeitosa, por mostrar o pai morto. Na época, Glauber justificou dizendo que "filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição".

                            

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